O home office ajudou os veteranos — e complicou a vida dos iniciantes

home office

Quando o home office se consolidou durante a pandemia, muitos acreditaram que os jovens profissionais seriam os principais beneficiados. Acostumada às tecnologias digitais, a Geração Z parecia estar naturalmente preparada para um mercado de trabalho cada vez mais remoto e conectado.

No entanto, estudos recentes mostram que essa percepção pode não refletir a realidade. Pesquisas indicam que profissionais em início de carreira têm encontrado mais dificuldades para ingressar no mercado e desenvolver competências quando atuam em equipes predominantemente remotas.

Home office: Estudo aponta aumento do desemprego entre recém-formados

Levantamento realizado pelo Federal Reserve de Nova York (Fed de Nova York) revela que o desemprego entre jovens graduados aumentou justamente nas profissões mais compatíveis com o trabalho remoto.

Entre os principais dados apresentados pelo estudo estão:

  • aumento de aproximadamente 1 ponto percentual na taxa de desemprego entre recém-formados em ocupações compatíveis com home office, em comparação ao período anterior à pandemia;
  • crescimento de 20% no desemprego entre graduados universitários com menos de 29 anos, atingindo média de 3,7% entre 2022 e 2025;
  • entre profissionais de 22 a 27 anos, a taxa chegou a 5,8% em 2025, o maior índice registrado fora do período da pandemia desde 2012.

Segundo os pesquisadores, o cenário não está diretamente relacionado ao avanço da inteligência artificial ou a uma desaceleração específica do setor de tecnologia.

A principal hipótese é que empresas encontram mais dificuldade para orientar, acompanhar e desenvolver profissionais sem experiência quando as equipes trabalham predominantemente de forma remota.

Mercado brasileiro também registra redução das vagas remotas

O movimento também pode ser observado no Brasil.

Dados divulgados pela Gupy mostram que a proporção de vagas anunciadas como 100% remotas ficou abaixo da média registrada antes da pandemia em maio de 2026, completando sete meses consecutivos de retração.

Embora as contratações remotas ainda permaneçam acima dos níveis de 2019, a oferta de vagas diminuiu enquanto a procura continua elevada, especialmente entre profissionais em início de carreira.

Segundo Guilherme Dias, CMO e cofundador da Gupy, os jovens representam hoje um dos grupos mais ativos na busca por oportunidades de entrada no mercado de trabalho.

O aprendizado informal continua sendo um diferencial

Muito do desenvolvimento profissional acontece fora dos treinamentos formais.

É durante reuniões, conversas rápidas, acompanhamento de colegas experientes e resolução conjunta de problemas que muitos profissionais constroem conhecimentos essenciais para sua evolução.

Esse chamado aprendizado informal é apontado como um dos fatores que vêm influenciando empresas a fortalecer modelos híbridos ou ampliar momentos presenciais para capacitação.

De acordo com a própria Gupy, as ações presenciais de treinamento cresceram 24% em 2024, refletindo essa preocupação com o desenvolvimento das equipes.

Inteligência artificial amplia os desafios da Geração Z

Ao mesmo tempo em que ingressa no mercado de trabalho, a Geração Z também enfrenta outra transformação significativa: a rápida expansão da inteligência artificial.

Pesquisa divulgada pela Cratvs, baseada no estudo “Vozes da Geração Z: o paradoxo da IA”, da Gallup, mostra que:

  • 48% dos jovens acreditam que conhecimentos relacionados à inteligência artificial serão fundamentais para suas carreiras;
  • o entusiasmo com a IA caiu 14 pontos percentuais;
  • o sentimento de preocupação e resistência à tecnologia aumentou;
  • a confiança na qualidade das tarefas realizadas com apoio da IA recuou para 56%.

Para especialistas, o desafio das organizações vai além da adoção de novas tecnologias.

É preciso desenvolver lideranças capazes de criar conexões, fortalecer o propósito das equipes e apoiar o crescimento profissional dos novos colaboradores.

O escritório continua sendo um ambiente de aprendizagem

O debate sobre trabalho remoto normalmente envolve temas como produtividade, flexibilidade e qualidade de vida.

Entretanto, os estudos reforçam outro aspecto igualmente importante: o desenvolvimento das pessoas.

Profissionais experientes costumam possuir autonomia, repertório técnico e rede de relacionamento suficientes para manter bons resultados em ambientes remotos.

Já quem está iniciando a carreira depende, em maior medida, da convivência diária, da troca de experiências e do acompanhamento de profissionais mais experientes.

Por isso, a discussão não deve ser reduzida à escolha entre trabalho presencial ou home office.

O desafio das organizações está em construir modelos de trabalho capazes de equilibrar flexibilidade, produtividade e desenvolvimento de talentos, garantindo que as novas gerações tenham oportunidades efetivas de aprendizagem e crescimento.

Fonte: Adaptado de artigo publicado pela InfoMoney, com análise da equipe da Silvio Barreto Consultoria.